Poema Original
Metade
Oswaldo Montenegro
Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que grito
A outra metade é silêncio
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Pois metade de mim é partida
A outra metade é saudade
Que as palavras que falo
Não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas como a única coisa
Que resta a um homem inundado de sentimentos
Pois metade de mim é o que eu ouço
A outra metade é o que calo
Que minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que mereço
Que a tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso
A outra metade um vulcão
Que o medo da solidão se afaste
E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
Que me lembro ter dado na infância
Pois metade de mim é alembrança do que fui
A outra metade não sei
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o seu silêncio me fale cada vez mais
Pois metade de mim é abrigo
A outra metade é cansaço
Que a arte me aponte uma resposta
Mesmo que ela mesma não saiba
E que ninguém a tente complicar
Pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Pois metade de mim é platéia
A outra metade é canção
Que minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
A outra metade também
Feudalismo
Que o trabalho árduo e braçal na terra
Não seja regido pelas construções naturais
Mas sim pelas que importam
Que possa haver igualdade entre as raças
Porque metade de mim é cobrança
Mas a outra metade é dignidade
Que a mortalidade infantil possa diminuir
Que a expectativa de vida suba
Que os impuros possam trabalhar para si mesmo, não para sustentar os puros
Porque metade de mim é poder
Mas a outra metade é sinceridade
Que a igreja possa diminuir o poder
E que aumente a racionalidade
Que o poder possa ser dado para quem merece
Não pra quem tem dinheiro de sobra
Porque metade de mim é lucro
Mas a outra é riqueza
Que o poder que eu tenho
Possa se igualar com o que não tenho
Que todos possam ter a chance de morar nos centros
Não as que têm dinheiro pra isso
Porque metade de mim é ganância
Mas a outra metade é sentimento
Capitalismo
Que o feudalismo que existiu na Europa
Não exista no capitalismo
Que eu não trabalhe mais pra o senhor feudal
Não me deixe sem essa benção
Porque assalariado serei
Mas a economia, não trocarei mais mercadorias
Que agora a moeda eu terei
Seja a economia baseada na compra e vendas de produtos
Que o sistema de produção e o sistema artesanal prevaleçam virando lucro de capital e enriquecimento
Por que no feudalismo iam pouca a mobilidade social
Mas o capitalismo maior mobilidade social
Que minhas condições de trabalho
Não seja árdua e braçal sofrendo com o tempo
Apenas trabalho como o capitalismo as condições de trabalho eram extremamente precárias
Como pode as condições de trabalho serem assim?
Porque um era árduo e braçal? E o outro extremamente precário?
Que revolução é essa?
Apenas trabalho como o capitalismo as condições de trabalho eram extremamente precárias
Como pode as condições de trabalho serem assim?
Porque um era árduo e braçal? E o outro extremamente precário?
Que revolução é essa?
Se nem no feudalismo nem no capitalismo tem melhoria de trabalho
Que essas revoluções que são desfavorecíveis aos trabalhadores
Seja um dia favorável
Por que dificuldade já enfrentamos, mas hoje queremos ser felizes.
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